Quatro ideias

OPINIÃO | José Aberto Rio Fernandes | Abril 2018

Muito se falou sobre os relatórios da comissão independente sobre os incêndios de 2017. Ótimo!

O que mais pareceu interessar foi a avaliação do que correu mal. O que é importante, sem dúvida. Não para se discutir quem são os culpados, como infelizmente gostamos. Mas para se compreender melhor o que temos de fazer para evitar que se repita o que se passou e também para deixarmos de ser os recordistas europeus de área ardida. Pelo que, o que mais importa são as recomendações.

Do muito que ouvi e li, a propósito do último relatório, longo e rico, coordenado pelo meu colega geógrafo (e amigo) João Guerreiro, realço quatro ideias:

  1. Na gestão do território, seja na limpeza de mato ou na proteção de pessoas e bens, os municípios (e as freguesias) têm um papel essencial. Não pode haver concelhos com mancha florestal significativa sem planos ativos de proteção contra incêndios. E tem de haver planos de proteção e de autoproteção claros e assumidos pelas populações.
  1. O Estado tem de se preocupar de facto com a floresta, o que implica termos mais pessoas no terreno, num regresso a uma lógica de desconcentração de serviços.
  1. O conhecimento tem de ser absorvido pelas componentes política e operacional. Depois de tantos estudos e relatórios, como podemos continuar sem uma prevenção estrutural dos incêndios e com tanta dependência de esforço voluntário no seu combate?

4. É essencial que exista quem garanta e aconselhe os governos na concretização de uma reforma tão difícil como necessária, pois que levará tempo e enfrentará interesses fortes e instalados, sejam corporativos (de associações de bombeiros, desde logo), económicos (associados à expansão de eucalipto e pinheiro, sobretudo), ou outros (como o conflito com o pastoreio).

 

José Alberto Rio Fernandes é Professor Catedrático do Departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) e é o  presidente da Direção da Associação Portuguesa de Geógrafos (APG) para o biénio 2016-2018. Colunista regular no JN – Jornal de Notícias e dinamizador de processos de desenvolvimento como cidadão, actor político, investigador e consultor.

Transcrição da coluna JN | Carlos Ribeiro | 4 de Abril 2018
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