A PRAÇA

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MAUS FÍGADOS

Uma das consequências negativas da comunicação proporcionada pela Internet, em particular pelas redes sociais, prende-se com a facilidade com a qual cada um(a) emite opinião, sustentada ou não, refletida ou não, a qualquer momento, seja onde for que esteja, e sobre todo e qualquer assunto. Considero que a facilidade é globalmente positiva, embora proporcione também bastantes incompreensões e, muitas vezes, a circulação de boatos e de mentiras. É uma realidade que não mudará rapidamente, com a qual podemos ou não conviver. Penso, ao contrário de algumas pessoas, que sair daqui correndo a sete pés tem muito mais resultados negativos que positivos.

O ideal será encontrar um ponto de equilíbrio, aceitando que jamais podemos fazer-nos entender por toda a gente ou agradar a gregos e a troianos. Definindo então as nossas próprias regra, de forma a que nos sintamos confortáveis, circulando por este território com proveito. Fugir dos energúmenos e idiotas é uma regra básica: é gente com a qual a maioria de nós jamais conviveria na vida real e não vejo motivo para aceitar fazê-lo aqui. Lido muito bem com isso, ou não escrevesse de forma pública desde há 48 anos e não estivesse ativo na Internet desde 92. Em regra, nem olho para essa gente, e quando ela me impede o caminho, removo-a tranquilamente.

Já é muito mais complexo, e admito que difícil, conviver com pessoas que em regra podemos considerar cultas, educadas, inteligentes e, tantas vezes, disponíveis e respeitáveis nas áreas em que vivem e trabalham, e onde emitem opinião, mas que aqui se comportam como aqueles sujeitos pequeninos e tímidos, sempre a pedir desculpa por existir, que ao volante do automóvel se transformam em ferozes trogoloditas. Vemos então a facilidade com a qual essas pessoas, à menor divergência, ou ao mais pequeno erro, e sobretudo se o preconceito as cega, são capazes de insultar e caluniar outras sem sequer lhes darem o benefício da dúvida.

Não me queixo deste comportamento aplicado a mim mesmo, embora ocasionalmente ele tenha ocorrido, mas incomoda-me a forma como o vejo por aqui, tendo por alvo pessoas que conheço e respeito – mesmo divergindo delas algumas vezes -, na forma de ataques pessoais, ‘ad hominem’, lançados sem contemplações. Normalmente generalizam críticas a partir de preconceitos de natureza política, social ou cultural, e não consideram a complexidade humana: a dos outros e a nossa. Incluindo a faculdade de enganar-se ou de errar. Trata-se uma marca de desumanidade e de ignorância, que confunde assertividade com comportamento trauliteiro. Só faz mal ao fígado e à qualidade de existência. De todos e de cada um(a).

É claro que isto não exclui o combate a sério, também neste espaço, sobre causas e assuntos que valham mesmo a pena. O que me parece mal é quando a crítica é desnecessária ou conduzida de forma fútil e precipitada, por vezes até num tom de desnecessária violência, desviando-nos do que é importante – raramente a pessoa a ou b – e fazendo-nos gastar tempo, energia e paciência, tão precisos para as batalhas necessárias. E para viver a vida, já agora.

Autor: Rui Bebiano, Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Investigador do CES – Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Publicado no facebook 13 de Agosto de 2018

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