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Podem os Centros Qualifica facilitar estratégias locais de educação comunitária?

O desafio dos territórios aprendentes (I)

Carlos Ribeiro – Embaixador EPALE para a Educação Não – formal e informal | Coordenador da Caixa de Mitos

O Centro Qualifica do Agrupamentos de Escolas Henriques Nogueira em Torres Vedras já tem a arte das pontes. A sua ação com os adultos que frequentam o Centro já incorpora toda uma dinâmica de interação com a comunidade local. Visitam as associações, incentivam a participação em eventos culturais, organizam contatos e iniciativas com outras entidades que operam no território nos diversos domínios do desenvolvimento social e cultural. Dinamizam o “Aprender mais”.

Numa visita recentemente realizada ao Centro, com o privilégio de participar na reunião semanal da Equipa, foi possível constatar que esta dinâmica de interação com os dispositivos e as iniciativas da cidade constituem um excelente ponto de partida para o desenvolvimento de abordagens sólidas e consistentes que poderão ser a base de uma estratégia de “territórios aprendentes”.

Co-produção de comuns

Não confundir o conceito com as “Cidades educadoras” que se estruturam pela oferta formativa principalmente do campo da educação formal, enquanto que os territórios aprendentes assentam numa lógica de “co-produção de comuns” ou seja se processos participados de criação de mais-valias em tudo aquilo que é ou pode ser utilizado por todos.

A matéria é delicada e exigente porque a sua implementação não tem que obedecer a um modelo pré-estabelecido. Pelo contrário, a sua eficácia será tanto maior quanto a sua formulação resultar da sua co-construção pelos atores locais.

Desafios

Das experiências que tenho acompanhado a nível nacional no quadro do diversos Centros Qualifica tenho verificado que existem bloqueios muito significativos a par de excelentes dinâmicas de envolvimento dos adultos nos processos de qualificação e aprendizagem. As principais tensões continuam a surgir em torno do RVCC que apresenta uma base de participação e até de animação que está muito marcada por preconceitos e ideias erradas sobre o objectivo nacional de equiparar através do diplôma os níveis de competências desenvolvidas ao longo da vida pelos adultos com os percursos escolares e os conhecimentos adquiridos em formação inicial. Infelizmente o “escolar” procura invadir e padronizar “as competências desenvolvidas em contextos de vida” e as tensões são significativas. Mas é um embate que vale a pena ter em conta sobretudo se a intenção é remediar as situações menos positivas e incentivar soluções como a “promoção da educação comunitária”.

Assistimos hoje a uma situação complicada no sistema Qualifica e em particular no  RVCC, já que os adultos participantes exigem processos rápidos e pretendem com a sua adesão uma obtenção quase automática de uma certificação.

A maior parte dos inscritos acaba por desistir e mesmo iniciando um processo de RVCC arrasta a sua plena concretização por razões muitas vezes injustificadas. Claro que muitos também concluiem e o esforço colectivo, dos próprios e das equipas de acompanhamento, acaba por ser premiado. Mas o problemas global subsiste.

Como transformar esta aproximação dos adultos a um sistema de aprendizagem em algo que possa ter sentido para o próprio, mas também para as competências locais e do país?

Face às situações de desistência, quando elas existem, assistimos a uma forte desmotivação dos animadores, formadores, professores e restantes membros das equipas porque avaliando os pontos de partida científicos e técnicos dos candidatos constatam que existe um autêntico abismo entre as bases dos adultos e as referências relativas aos conhecimentos inscritos nos Referenciais. Para este julgamento contribui um olhar sobre essas situações no qual passaram a ser dominantes, os conteúdos, as disciplinas e as matérias dos saberes enciclopédicos. Para compensar as ditas lacunas identificadas os membros das Equipas dedicam as suas energias ao apoio no relato das histórias de vida, estas exclusivamente focadas nos acontecimentos, nas narrativas, nos incidentes e com uma limitadíssima reflexão sobre as experiências relatadas.

Como podemos recuperar para os processos RVCC o conceito de competências e agir para valorizar os recursos de cada pessoa em vez de confrontar sistematicamente os participantes com as referências escolares indesejadas? Como recuperar ainda a articulação das metodologias das Histórias de Vida com o Balanço de Competências para colocar no centro dos processos as experiências e os recursos dos adultos (e não os défices, ou insuficiências, ou lacunas), recursos que todos dispõem e que serão  valorizados se  forem abordados a partir de situações da vida quotidiana, que tenham um sentido de utilidade para o adulto e que estejam relacionados com as suas prioridades?

Voltaremos a estes dois assuntos, articulando as hipotéticas soluções com a construção de Territórios Aprendentes cuja dinâmica é nuclear no desenvolvimento local sustentável.

Carlos Ribeiro 

16 de Fevereiro de 2019

Reunião com a Equipa do Centro Qualifica do Agrupamento de Escolas Henriques Nogueira – Torres Vedras

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