A PRAÇA

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Alfama (e Intendente)

José Alberto Rio Fernandes, Geógrafo, Presidente da Associação Portuguesa de Geógrafos

Surpreendi-me há dias em Alfama pela quantidade de gente que havia numa segunda-feira de março. Enquanto passava uma excursão em segway, uma senhora explicou-me que o seu café com uns 30m2 ia fechar apesar de pagar mil euros de aluguer mensal e o proprietário nem sequer discutia o valor futuro. Ao lado, duas vendedoras de ginja (com mesa aberta a um canto do largo) disseram que tudo ia bem. Mas, poucos metros adiante, na Rua de S. Pedro, a proprietária duma de muitas casas de petiscos (e ginjinhas) falava-me da ausência de residentes e da “morte da alma do bairro”. Acima, no Miradouro de Santa Luzia, havia filas para as fotos, na vizinhança dum parque com dezenas de tuctucs, cada um garantindo 200 euros por dia (disse-me o proprietário de quinze). Passados vários grupos de pessoas de auscultadores a ouvir guias, entramos no Bairro do Intendente, onde, em contraste, os estrangeiros com pequenos negócios são mais que os turistas. Mas aí, apesar do comércio popular, de restaurantes onde ainda se come barato e das vielas onde nem todos se atrevem a passar, os sinais de gentrificação são evidentes, nos anúncios em inglês a ginja, água e outras bebidas, ou pela reabilitação de imóveis, como na rua do Bemformoso, onde a Casa dos Amigos do Minho encerrou. Para (mais um) hotel, supõe-se.

“O mundo é feito de mudança”? Sim! De permanências também. O turismo é essencial à economia? Sim, apesar de haver muito mais além de turismo. Todavia, não desejando ninguém a ruína da cidade antiga, será desejável não haver mais do que T0 impróprios para famílias? E será bom para as cidades – e para o turismo – a concentração de visitantes em pequenas partes históricas de Lisboa e Porto, num país com tanto para ver, mas por onde estes apenas passam (quando passam)?

Esta crónica foi publicada no JN e aqui reproduzida com autorização do autor.

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