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Verão

José Alberto Rio Fernandes, geógrafo, Presidente da Associação Portuguesa de Geógrafos

Não há verão sem incêndios. Este ano, como há muito não me lembro, passaram-se semanas sem ouvirmos falar deles: a greve no transporte de mercadorias e combustíveis substituiu-os, quando o futebol estava de banhos. Mas, tivemo-los em junho e vão voltar. Mais complicados do que há umas décadas, quando havia menos bombeiros, aviões e helicópteros, mas mais campos e pessoas nas aldeias e as manchas de pinhal eram mais pequenas, ou estavam afastadas das casas, abundando ainda os carvalhos, castanheiros e sobreiros, quando não apenas erva, urze e giesta.

Tudo mudou. Ainda bem, na medida em que os nossos pais, ou avós, se libertaram da agricultura de subsistência e da pobreza, a maioria por emigração ou migração. Ainda mal, porque se embarcou no mito do “petróleo verde”, com as celuloses a agradecer, quem ficou ou saiu das aldeias a ter algum rendimento, florescendo, entretanto, o “negócio do incêndio”, que inclui uns trocados para bombeiros voluntários.

Agora, sem se conhecerem os donos de cada terreno – o levantamento cadastral avança, por fim, mas muito lentamente – e tantos a não cuidar do que é seu (por incúria, por não saberem o que é seu, ou falta de recursos), resta pouco mais do que apostar em limpeza e sapadores florestais e ter mais “meios” de ataque, sempre insuficientes (e inúteis, quando o incêndio é forte demais).

Ardem eucaliptos que regressam no ano seguinte e, enquanto uns ardem, outros crescem ao lado, finos e densos, quando não, vai-se a ver, e há quem continue a plantá-los! O efeito da liberalização de Cristas prolonga-se até o fim do ano…

Acrescente-se o aumento da secura e o aquecimento global; some-se a estranha quantidade de pirómanos, terroristas do incêndio e pastores a criar pastagem e temos o que temos! Uns anos mais, outros menos.

José Alberto Rio Fernandes
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