Sex. Dez 6th, 2019

Jornalismo cidadão |

O bom gigante

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Helder Costa, dramaturgo

Coimbra, 1962. Eu estudava na faculdade de Direito, estava na Secção Internacional da Associação Académica, escrevia na “ Via Latina” dirigida pelo meu colega José Carlos de Vasconcelos, vivia na República Pra – Kys-tão e também estava no Citac, grupo de teatro. Acabo de descrever a vida de muitos estudantes dessa época, fugindo à monotonia do ensino e tentando colaborar e enriquecer –se para  combater o regime fascista.

Entre esses muitos que se juntavam apareceu José Mário Branco, jovem do Porto que terminava o Liceu. Foi apanhado por uma razia da Pide e esteve preso em Peniche. Quando saiu , recusando a guerra Colonial, apanhou o combóio para Paris. Foi dos primeiros a praticar esse acto de recusa, seguido por muitos milhares de portugueses. Eu escapei dessa prisão porque não pertencia ao PCP, mas fui escolhido pela “prestimosa” instituição para ser o jovem estudante que iria reabrir a Companhia Disciplinar de Penamacor. Passados uns meses, o Bcg descobriu –me uma mancha num pulmão e fiquei isento do serviço militar. Deus, às vezes , não dorme.

Em Lisboa, continuei com a actividade Associativa, e com alguns amigos organizamos redes de apoio e fuga para refractários e desertores. A luta contra a guerra colonial era uma chave fundamental dessa juventude. Por se perceber que era uma guerra inútil que só existia para manter um regime moribundo, e porque os estudantes oriundos da Colónias – e nossos camaradas de luta – , tinham desaparecido para irem lutar pelos seus países. Entretanto, reorganizei o Cénico de Direito e começámos a ir ao Festival Mundial de Teatro Universitário em Nancy. Eu aproveitava para passar por Paris e uma vez o José Mário disse –me que estava a ficar interessado em trabalhar no campo Cultural e fundamentalmente na  Música.

Em 1967 fui obrigado a apanhar o tal combóio para Paris, no dia seguinte fui à “ Joie de Lire”, livraria de Maspero – ponto de encontro de revolucionários,  e encontrei o Zé Mário que me levou para sua casa, onde estive um mês e ouvi o início de “O soldadinho” e assisti a um concerto das suas canções em Francês na festa do “ L ‘Humanité”.

O seu trabalho musical nunca mais parou e participou em muitas sessões que eu fazia ao fim de semana em bairros de lata e foyers com o meu grupo “ Teatro Operário”. A amizade e a fraternidade foi –se desenvolvendo, e a seguir ao 25 de Abril os laços tornaram –se mais sólidos e eficazes. Tive a sorte de ser convidado para participar como dramaturgo e assistente de encenação no 1º espectáculo montado a seguir à data libertadora : “ Liberdade , Liberdade”.É evidente que teria de convidar o José Mário Branco para música, canções, e direcção do conjunto musical. Entretanto, ele tinha terminado o seu casamento e eu apresentei –lhe a Manuela de Freitas, minha amiga desde o Cénico e já actriz na Comuna. Foi um encontro feliz afectiva, artística e profissionalmente. E ele deu mais um salto em frente fazendo música e canções originais para “ A mãe” de Brecht, em vez de recorrer ao Kurt Weil.

No desenvolvimento das lutas políticas pós – 25 de Abril, eu abandonei a luta partidária e dediquei –me ao trabalho teatral na Barraca. Mas convidaram –me para dirigir a FAPIR – Frente da Artistas populares e intelectuais Revolucionários” que eu aceitei com a colaboração  do Zé Mário, Manuela, Raul Calado, Domingos e outros. Publicamos 2 revistas – O Boletim, dirigido por Jorge Serrão e “Resposta” por Luís Tavares, e entre outras iniciativas o Zé Mário fez o Festival Popular 25 de Abril no Porto em 1977. Em Lisboa, fizemos um Carnaval durante 4 dias na Fac de Letras, e principalmente o Dia mundial do Teatro- 27 de Março 1978 – com um desfile de 18 grupos de teatro em camionetas de caixa aberta para mostrar cenas e cenários — pela Avenida da Liberdade.

O percurso profissional do Zé Mário foi fascinante e transformou –o num nome Maior  da Cultura e Música Portuguesa e Internacional. Sempre capaz de correr com prazer atrás de riscos e invenções. Por isso, convidei –o a fazer canções e música para “ Gulliver”, minha adaptação de Swift. Foram 10 obras primas de que depois ele fez um disco. Onde estão “ Do que um homem é capaz” , e “Amor gigante” ,de que ele falou inventando uma bela metáfora : “para mim , a menina gigante era a Música, e como é que eu, um liliput, a podia enfrentar?”. Pois o que se pode dizer é que a Música/ menina Gigante teve muita sorte em lhe aparecer pela frente um Gigante, um Bom Gigante.

O Zé Mário teve sempre uma curiosa inquietação e mal –estar por não ser militante político mais activo. Por isso esteve na Udp, depois no Bloco e ainda tentou o “ Mudar de vida”. Sempre me convidou e pressionou para eu o acompanhar nessas tentativas, e eu sempre invoquei a minha falta de paciência para repetir intermináveis reuniões sobre tácticas e estratégias partidárias. E assumi que, nesse campo, só lutaria pela unidade das esquerdas. E disse –lhe muito seriamente que ele tinha de perceber que uma canção ou um concerto dele tinham muito mais efeito e importância que algumas tentativas políticas. 

E subitamente, veio a notícia horrível. Tu tinhas nos deixado. Um ataque brusco…coração?

Dor, raiva, sentimento de injustiça, porquê? Pobre Manuela, pobre família, pobres amigos.

Essa perplexidade, essas lágrimas correram em milhares de pessoas, o povo anónimo seguiu-te e cantou –te. Finalmente, Portugal mereceu – te.

Um beijo, querido irmão.

Teu Hélder

Foto TeleS

O ” Jornal de letras” convidou -me para escrever sobre o José Mário Branco. Decidi recordar factos que desenharam o nosso percurso cultural e político, para oferecer mais conhecimento sobre esses “anos de chumbo”, de luta e de esperança Utópica ( para continuar a andar, citando Galeano). Helder Costa

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