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Jornalismo cidadão |

Deixar de virar as costas aos sindicatos

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FORUM MANIFESTO PROMOVEU DEBATE SOBRE IGUALDADE, IDENTIDADES E CLASSES

Carlos Ribeiro|CaixaMedia, 26 de Janeiro de 2020

Numa conversa que meteu Houellebecq e o seus mapas Michelin ao barulho, que mobilizou padres, freiras, elevadores-avião, caixas de pandora, minas e armadilhas e queijos gruyère mais ou menos esburacados para ilustrar e argumentar a favor de uma igualdade descaradamente não-consensualizada, a Associação Fórum Manifesto cumpriu a tradição de promover, mais uma vez, a inquietação do “saber mais”.

Num dos auditórios da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa teve lugar ontem, dia 25 de janeiro, o forum de inverno da Manifesto que abordou temas diversos de natureza filosófica, política e prática, a partir de uma referência central: a igualdade.

José Castro Caldas, Paulo Pedroso e Cláudia Joaquim desenvolveram e partilharam com o auditório uma reflexão aprofundada sobre os temas da economia, do trabalho e das políticas sociais, sendo de destacar o reconhecimento comum do facto de, até há muito pouco tempo, ser “a desigualdade” a matéria dominante no plano legal e da prática social. Só muito recentemente se alterou esse quadro geral e Paulo Pedroso recordou como, por exemplo, no século passado, as famílias ainda tratavam de contornar a legislação sobre a transmissão do património encaminhando de forma habilidosa alguns filhos e filhas para “vocações” como padres e freiras ou para a imigração. O importante era impedir a divisão da propriedade e não a igualdade de direitos dos sucessores.

Na abordagem ao tema central aquele orador, que foi Ministro do Trabalho num dos governos Guterres, valorizou a acção colectiva como primado da defesa dos direitos e da luta pela igualdade atribuindo à inúmera legislação a eles associada uma rigidez que a torna muitas vezes ineficaz. No fundo Paulo Pedroso lançou um alerta para a secundarização do trabalho nas políticas públicas e consequentemente a desvalorização das questões sindicais no discurso e na prática política da esquerda, colocando esta matéria como ponto fraco em particular dos socialistas no governo.

Outros temas estiveram presentes neste painel como a taxação igualitária, a distribuição primária e secundária da riqueza e do rendimento, o perímetro dos direitos, as relações entre identidade, trabalho e a economia das plataformas e o próprio Estado Previdência.

No segundo painel, com José Reis, João Ferrão e Teresa Barata Salgueiro, foram realizadas várias incursões mais ou menos provocatórias ao tema do território e emergiram referências a uma crise territorial grave, à justiça espacial por concretizar e à coesão territorial, completamente fora da agenda política actual atendendo à abordagem que dela é realizada. A forma como é implementada, dearticulada de uma estratégia baseada no princípio da equidade e não apenas da igualdade, anula dramaticamente a sua eficácia

Ficou por clarificar, no final dos dois painéis, se o capitalismo, representado metaforicamente por uma caixa, deveria ou não ser globalmente reavaliado e profundamente reajustado e, consequentemente, a caixa ser aberta ou, se pelo contrário, deveria permanecer fechada, esperando-se que uma espécie de auto-regulação interna venha a facilitar a sua progressão noutra direcção que não a actual.

Os videos da sessão estão disponíveis no Facebook da AssociaçãoForumManifesto

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