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Cada coisa a seu tempo, mas tem que se olhar para o horizonte

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Carlos Ribeiro | Caixa de Mitos | 23 de Março de 2020

Não se pode fazer tudo de uma só vez, sobretudo quando há tanta coisa para fazer. É pois razoável a implementação de estratégias gradualistas e seguras que garantam  a melhor forma possível para lidar com as mudanças em curso nos processos de aprendizagem.

Etelberto Costa, companheiro de processos de sensibilização e co construção em matéria de inovação na educação de adultos adiantava numa recente partilha de opiniões a ideia que face a pressão que se está a verificar para uma entrada em força nas soluções digitais de educação-formação que os actores desta mudança não deveriam “deixar-se enfeitiçar pelas tecnologias”. Depreendo que devam usá-las com audácia e criatividade, adaptando-as às necessidades de cada um e de cada grupo e assumindo a sua importância relativa e proporcional no processo complexo da aprendizagem.

Outro modelo

Isto porque esta mudança, se for apenas tecnológica, não resultará naquilo que é essencial, ou seja numa reformulação profunda dos sistemas de aprendizagem baseados no modelo taylorista para a educação e a formação.

Seguem-se apontamentos genéricos sobre alguns desafios que se colocam de imediato e para os quais impõe-se que exista uma aproximação gradual e consequentemente uma gestão individual adequada para os enfrentar e ultrapassar:

Aprendemos todos, uns com os outros

1º Da mesma forma que muitos professores,  formadores e outros animadores de aprendizagens estão a colocar abertamente aos seus pares, em grupos online de apoio e de entreajuda por exemplo no Facebook ou no WhatsApp, as dificuldades concretas que sentem na utilização dos meios digitais que estão a descobrir, deveriam admitir que os seus alunos ou formandos poderiam e deveriam usar o mesmo princípio da aprendizagem colaborativa e entre pares, para a matéria que irão tratar e desenvolver com os alunos. Ou seja, para além de uma abordagem pedagógica baseada nas metodologias participadas e de descoberta, fomentariam dinâmicas de inteligência colectiva e introduziriam mais-valias no processo de aprendizagem combinando abertura com regulação e sistematização das ideias e das experiências vividas por todos. Esta recente experiência do manuseamento dos novos meios tecnológicos pode favorecer uma ruptura positiva com a ideia do ensinar e favorecer uma abordagem mais integrada centrada no facilitar, no acompanhar e no sistematizar. 

Cuidar da vida comum

2º No arranque desta fase de rápida adaptação às novas modalidades de comunicação e de funcionamento foi necessário realizar uma avaliação dos recursos disponíveis e potencialmente utilizáveis por cada um dos membros do grupo de participantes. Compreende-se que numa primeira etapa a questão da continuidade das actividades fosse central. Mas agora e muito rapidamente o grupo precisa de CUIDAR das condições de participação de todos os seus membros. Quem tem computador, quem não tem, quem precisa de software, quem pode facilitar a todos a utilização de um equipamento de que dispõe. Essa deve ser uma tarefa de TODOS OS MEMBROS DO GRUPO. Cuidar de uma relação inclusiva não é matéria vaga e de frases bonitas. Trata-se de encontrar soluções, de ultrapassar barreiras e dificuldades e neste processo forjar uma cultura de SOLIDARIEDADE e de cooperação no seio do grupo. Os valores, que tantos apregoam como fundamentais nos processos educativos, não devem ser apenas matéria para aula e ou para exposição temática do professor ou professora. Devem ser o cimento da relação entre os grupos de aprendentes.

Os novos papéis na dinâmica colaborativa

3º As condições logísticas do funcionamento dos grupos de aprendizagem ou de processo de RVCC nas actuais circunstâncias obrigam a uma reformulação das interacções anteriores tendencialmente fortemente hierarquizadas e de sentido top-down por sistema.

Novos papéis podem ser assumidos nos grupos de forma partilhada e até rotativa.

A função de INFOR-HELP pode ser assumida por um formando ou um aluno com uma preparação elevada nos domínios do hardware e do software e que pode apoiar todos os outros, o formador ou professor inclusive. Se no grupo estas competências não existirem disponíveis, uma das tarefas do grupo é encontra alguém exterior ao grupo que de forma voluntária desempenhe esse papel determinante;

A função de NET-BIBLIOTECÁRIO pode ser desempenhada por alguém do grupo que organiza de forma regular toda a documentação temática associada às sessões, que a disponibiliza de forma dinâmica e que a reforça com sugestões próprias validadas pelo professor / formador;

A função REPÓRTER DIGITAL pode ser desempenhada por um pequeno grupo (dois, máximo três) que escreve e produz materiais multimédia para ilustrar as actividades formativas que são levadas a efeito. Esta informação reforça a identidade e a cultura de grupo e tem a dupla vantagem de sistematizar as principais ideias das aprendizagens em curso e em aprofundamento.

E outras funções existem e voltaremos a elas.

Por agora fazemos um caminho inverso ao copy.paste das actividades presenciais no universo digital porque pretendemos que esta nova oportunidade não seja principalmente tecnológica mas acima de tudo um reatar profundo da educação e da educação de adultos com o desenvolvimento das pessoas, das organizações e dos territórios.

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