Sex. Dez 4th, 2020

jornalismo cidadão

Rede de Repórteres sociais

Carlos Ribeiro | Praça das Redes | Coordenador e dinamizador da Caixa de Mitos – Agência para a Inovação Social

Leio com alguma apreensão as propostas que estão a surgir de vários quadrantes, sobre a compra de tablets e computadores em grande escala para os alunos mais carenciados do sistema de ensino. Não porque discorde da sua aquisição e da necessidade de intervir face ao agravamento das desigualdades, mas antes porque constato que em vez de se aproveitar as actuais circunstâncias facilitadoras da  reformulação dos modelos dominantes de educação, pouco eficazes e eficientes e tendencialmente orientados para a descriminação social, está-se a dar cobertura voluntária ou involuntariamente ao que vai na cabeça dos educotayloristas que pretendem modernizar as cadeias de produção recorrendo à tecnologia para tornar a escola mais produtiva e mais competitiva.

Novos espaços de aprendizagem

Os novos espaços de aprendizagem, que estão a emergir em formatos muito diversificados nos diversos cantos do globo, são uma clara contra-corrente ao paradigma industrial dominante na educação e constituem uma fonte de esperança para libertar os processos educativos da sua relação castradora, porque unidireccionada, com a economia e o mundo dos negócios.

Uma educação para a liberdade

As abordagens flexíveis na utilização dos espaços e sobretudo nas metodologias de aprendizagem não constituem por si só um quadro de mudança do paradigma mas são um bom ponto de partida quando se tem uma perspectiva reformista dos sistemas. Devem pois coabitar e interagir com experiências inovadoras que oferecem de forma estrutural o que deve prevalecer na educação: a liberdade e a construção de um sentido individual e colectivo de vida.

Espaço-eira como pivot

Exemplificando, hoje os espaços comunitários e de partilha denominados de tiers-lieux ou third places noutras linguagens, que eu gosto de referir como sendo espaços-eira, combinam em áreas amplas e auto-organizadas pelas comunidades locais, trabalho, formação, iniciativas culturais, cinema, biblioteca, educação de adultos, hortas e produção artesanal, recriando ambientes colaborativos e de vida comunitária de proximidade. Estes espaços não se podem tornar nos polos agregadores de toda a vida comunitária local. Mas devem ser tão relevantes para a vida em comum como o são os Centros de Saúde, a Biblioteca, os espaços desportivos, as escola e todas as restantes infraestruturas centrais da vida local.

Cenários

Podemos imaginar num futuro próximo dois cenários para esta matéria da relação da tecnologia com a educação, não me debruçando especificamente sobre as actuais atribulações relacionadas com a aprendizagem acelerada das soluções tecnológicas que também estamos a acompanhar com especial interesse:

Cenário digital: escolas e salas de aula dominadas pelo digital, com uma intensificação dos processos de aprendizagem baseados nos conteúdos, nas disciplinas, nos saberes enciclopédicos, um intensificação dos TPC, estes agora realizados em computadores e tablets modernaços e híper acessíveis. Novos quadros electrónicos nas salas de aula, motivo para inaugurações e discursos dos autarcas locais, programas de intercâmbio Erasmus+ através do Zoom intensificando-se, a internet segura como tema para milhares de workshops dirigidos a professores, tests através do Google Forms ou do Survey Monkey tratados por aplicações baseadas na Inteligência artificial , enfim certificações que dão garantias às empresas do excelente domínio das ferramentas digitais…..

Cenário territórios capacitantes: uma nova relação com os espaços de aprendizagem, por princípio diversificados e relacionados com a vida nos territórios, mas também com uma visão global do mundo; uma abordagem integrada dos saberes, em grande medida tendo por ponto de partida as questões que se colocam a cada um, aos diversos grupos e às comunidades. A emergência de uma figura central dos processos pedagógicos e andragógicos, os facilitadores de aprendizagem. Uma reutilização e reapropriação do conceito de competência, na sua combinação criativa entres os diversos saberes, estruturando sentidos de vida e competências colectivas. Um assumir da incerteza, da dúvida, da interrogação permanente para aprender a viver o seu tempo, fomentar espírito crítico e produção colaborativa através de processos de inteligência colectiva. Uma clarificação, óbvia, do papel das tecnologias ligadas ao digital: serem apenas e só, apesar de muito importantes, uma ferramenta, entre outras, para educação focada na liberdade e no desenvolvimento sustentável dos territórios.

Concluindo, apoiar a aquisição de ferramentas tecnológicas que contrariem o fosso digital torna-se um imperativo, mas a sua valorização plena deve estar associada às iniciativas que farão do seu uso algo que dificulte ou até impeça que a reprodução e intensificação dos modelos educativos proto-tayloristas mais uma vez triunfem, se consolidem e com isso se perca mais uma oportunidade de não matar o futuro.

Carlos Ribeiro | 17 de Abril 2020

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