Qui. Dez 3rd, 2020

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O monge trapista e a Teams do arquipélago

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Nostradamus açoriano que engole os sapos do vírus, o pivô da Valorizar convida-nos para o acompanharmos, num percurso vivido ao ritmo do Missão Impossível II, numa visita guiada aos Trabalhos de Hércules da COVID19-Açores. Informáticos instalam sistemas e infraestruturas de comunicação na noite de domingo, psicólogos alimentam linhas de apoio em regime de call-center, formadores dão peito às enxurradas de PRA e ficam sem mãos para medir as sessões de certificação a distância, novos GPS da qualificação emergem do nada, que mais pode acontecer?

“No início de março desse ano, num jantar em casa de amigos, falava-se de um vírus que vinha da China. Eu, do alto da minha sabedoria, sentenciei que não havia motivos para preocupação, o vírus, quando chegasse à Europa, encontraria uma população bem alimentada, com água canalizada e ótima rede de esgotos. Portanto, não faria grande mossa. Desde então, como penitência, tenho vivido silencioso como um monge trapista.

Sob o meu otimismo inicial caiu uma tempestade, poucos dias depois, que nos obrigou, não de um dia para o outro, mas antes da manhã (quando surgiu o primeiro caso nos Açores) para a tarde, a nos recolhermos em casa. Em termos profissionais não foi uma boa experiência, mas poderia ter sido muito pior.

Mãos à obra na DREQF

A Direção Regional do Emprego e Qualificação Profissional, onde trabalho, fez como os pescadores: aviou-se em terra. Somos, há anos, um serviço com certificação ISO, o que foi fundamental, pois com processo de trabalho bem mapeados tudo é mais fácil, estejamos a trabalhar no gabinete ou na nossa sala de jantar. A par da qualidade, investimos muito em tecnologia, criando uma rede informática sólida e bem desenhada. No momento de ir para casa, bastou levar os computadores, sabíamos o que tínhamos de fazer e acabamos por perceber que muito desse fazer já era imaterial. A cereja no bolo foi o Teams, fresco entre nós de poucas semanas, e que transformou os nossos esforços pessoais num trabalho de equipa.

Funcionário público

Outro facto importante foi descobrir que os momentos de crise revelam realmente o melhor de nós (se há um pior, ainda estou por encontrar). O corpo de trabalhadores tornou-se numa equipa esforçada, disponível e voluntária. Ninguém reclamou, todos cerraram os dentes e avançaram. Nunca tive tanto orgulho de ser funcionário público.

Foi um tempo de homens e mulheres bons. A equipa de informática da minha Direção Regional montou, quase da noite para o dia, um espaço, com a devida infraestrutura de comunicação, para funcionar uma das linhas de apoio telefónico COVID-19 do Governo dos Açores. Corrijo, não foi quase da noite para o dia, foi mesmo da noite para o dia…de um Domingo. Psicólogos voluntariaram-se para o trabalho, dentre eles dois da Rede Valorizar.

Intensidade redobra

Na Rede Valorizar temos dois grandes eixos de trabalho: os processos de RVCC e a formação. O RVCC não exigiu uma mudança profunda, pois já era realizado em boa parte a distância. O que mudou não foi a prática, mas a intensidade. Muitos dos nossos utentes também estavam confinados e, por conseguinte, passaram a dedicar-se com afinco aos seus portefólios. Foi uma enxurrada de PRAs. A pandemia, ironicamente, aumentou a produtividade dos grupos. As sessões de certificação a distância, via Teams, tornaram-se quase diárias. Pela primeira vez os formadores confessaram não ter mãos a medir. Temos 150 adultos em processo de RVCC.

Formação reformulada

A formação presencial é um desafio muito mais difícil e complexo, que foi sendo vencido como a sopa quente: pelas bordas. Novamente a nossa certificação da qualidade e as suas exigências em termos de desenho de projetos muito ajudaram.

Sabíamos, desde o início, o que não podíamos fazer. Formação a distância não poderia ser simplesmente formação mediada por um computador com câmara e acesso à Internet, era preciso dar um salto. O primeiro algo mais que criamos foi o que batizamos de Roteiro de Atividades, onde sintetizamos toda a planificação da formação, incluindo os seus conteúdos, objetivos, planificação, sessões síncronas e assíncronas, avaliação, … Um documento não para ser arquivado no dossiê técnico-pedagógico, mas uma ferramenta pronta para ser utilizada ativamente pelos formandos ao longo da formação, como se fosse um GPS da qualificação. O segundo passo foi reformular todos o material didático. A Rede Valorizar sempre teve manuais próprios, criados pelos seus formadores. Chegara a hora de desmontá-los e torna-los adaptados à formação a distância. Por fim, foi definir a plataforma que iríamos utilizar e, nesse aspeto, a palavra de ordem foi os formandos é que mais ordenam. Optamos, no geral, pelo Classroom e pelo Meet, mas há grupos que preferem o Teams, enquanto outros funcionam muito bem com o bom e velho e-mail.

Partilhar informação e equipamentos

Tudo que estamos a produzir vamos partilhando paulatinamente na nossa página do Facebook.

A primeira experiência piloto foi com o Inglês, mais precisamente as UFCD de LEI e LEC. Temos, presentemente, 88 formandos a distância, das ilhas São Miguel, Santa Maria, Faial, Pico, Graciosa e São Jorge. Mais 44 estão à espera do início de mais turmas. No dia 6 de julho iniciaremos as primeiras turmas de Cursos ABC para o 3.º ciclo. Não sabe o que é um Curso ABC? Precisa mesmo de nos visitar no Facebook.

Os adultos, desde que tenham competências digitais básicas, de uma maneira geral aderem bem à experiência. Competência digital e um toque da imprescindível criatividade lusitana. Temos uma mãe, por exemplo, com dois filhos, alunos dedicados da telescola, e apenas um computador em casa. As aulas de Inglês ela tem acompanhado pelo seu telemóvel, com sucesso, é preciso acrescentar.

Desafio

Mas se estamos a vencer algumas batalhas, outras são de resultado incerto. Os adultos com baixa escolaridade e sem competências digitais são um público difícil de atender por meio da formação a distância. Como é que se ensina alguém a ler e a escrever por meio de um computador, se este alguém nem sequer sabe usar um computador ou, não raramente, nem sequer tem um computador? Aceita-se sugestões”.

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