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OPINIÃO | Libertem as competências da prisão neoliberal

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PR | 15 setembro 2020 | OPINIÃO

Por Carlos Ribeiro, Caixa de Mitos

Nas atividades formativas que não se inscrevem nos processos lineares da formação inicial e da formação contínua e que se inscrevem no registo da educação a escolha é simples: ou se forma para a competitividade ou para a pessoa e para a sua liberdade.

Não, não! As meias tintas não valem! O argumento de ser inevitável também formar para o emprego, para a dita empregabilidade, para aquilo que “as empresas necessitam” serve apenas para autovalorizar os processos formativos e contornar o que é essencial em educação.

Precários e formação

Não iremos tanto pelo lado das teorias do precariado “porquê formar se os empregos disponíveis são precários e mal remunerados” ou dos “empregos de merda -título de David Graeber) afinal “que formação é necessária para empregos tendencialmente pouco qualificados?”, mas mais pelo lado da desocultação de um conceito feito prisioneiro pelo neoliberalismo ascendente na Europa em meados dos anos 90 do século passado e que, nos tempos que correm, está cada vez mais consolidado, para mal dos nossos pecados.

Isto a propósito das capacidades e dos saberes dos adultos que alguns teimam, propositadamente, em denominar competências.

Conceito não admite fragmentação

O conceito que na sua dimensão plena, leboterfiana, desenha um quadro de desenvolvimento e integra uma dinâmica criativa no processo de combinação das três vertentes estruturantes, o conhecimento, o desempenho técnico e a atitude adotada na situação concreta de mobilização das duas outras, foi propositadamente capturado pelo mundo empresarial e pelas estratégias desenvolvimentistas para simular inovação e uma nova abordagem (dita não-taylorista) da formação.  

As formulações foram sendo cada vez mais ambíguas, mas os resultados esperados mantiveram-se os mesmos: formar para a qualidade/produtividade na vida profissional e exigir o “zero defeitos” através de estratégias colaborativas e punitivas de formação em torno das denominadas competências.

A motivação de pacotilha

Importa destacar o aproveitamento realizado pelos “formadores de competências” que destacaram as abordagens “atitudinais” de forma isolada das outras dimensões da competência e situarem os quadro formativos principalmente das dimensões motivacionais o que justificou o surgimento dos subprodutos como os Team Buildings, os Out-doors motivacionais, as dinâmicas de equipas baseadas nas ditas competências sociais, etc.

Mas o contrabando não consegue fazer esquecer que houve o Relatório da UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI “Educação: um tesouro a descobrir” que Jacques Delors coordenou e que desta reflexão de fundo sobre o futuro da Europa emergiram 4 pilares com quatro tipos fundamentais de educação: 

  • aprender a conhecer (adquirir instrumentos de compreensão), 
  • aprender a fazer (para poder agir sobre o meio envolvente), 
  • aprender a viver juntos (cooperação com os outros em todas as atividades humanas), e finalmente 
  • aprender a ser (conceito principal que integra todos os anteriores).  

Estas quatro vias do saber, na verdade, constituem apenas uma, dado que existem pontos de interligação entre elas., eleitos como os quatro pilares fundamentais da educação.

Delors existiu, mesmo

Os 10 anos de Delors à frente da Comissão Europeia, até 1995, lançaram as bases de  uma nova visão para a educação na Europa. Entretanto surgiu Mastricht, Santer colocou-se ao leme de um barco que pessoas sinistras como Durão Barroso veio a comandar e que atualmente tem a sua continuidade com Von der Leyen do mesmo grupo ideológico.

A abordagem pelas competências se é desligada da sua dimensão libertadora e criativa reduz-se à eficácia e à eficiência útil aos negócios. Estar a funcionar numa ótica neo-talorysta do conceito deve ser triste e enganador. Mas o pior é não saber ou nem sequer pensar no assunto. Ou então aplica-se o provérbio “O pior cego é aquele que não quer ver”.

Carlos Ribeiro

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