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Ana Vale, uma humanista facilitadora de inovação

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PR | 28 de setembro de 2020 | Informação

por Carlos Ribeiro

Deixou-nos Ana Vale e com ela desaparece a referência central da Inovação Social em Portugal cuja expressão máxima residiu na Iniciativa Comunitária EQUAL que funcionou entre 2001 e 2007.

As marcas do Programa foram de tal ordem que a sua eliminação pura e dura depois do primeiro ciclo de execução representa o primeiro grande sinal da imposição do neoliberalismo nas políticas da União Europeia e o fim das expectativas de um Estado Social com outras vertentes que não as destinadas à mera remediação.

Exigência e flexibilidade

Ana Vale era conhecida pelo rigor e pela persistência nos objetivos e nos rumos definidos. Combinava exigência com flexibilidade. Ouvia e incentivava a escuta activa em todos os sistemas de inovação.

Com ela alguns conceitos fundamentais como discriminação, empoderamento, participação, comunidade de prática, interculturalidade, responsabilidade social, inclusão, parceria, rede, empreendedorismo social, e muitos outros, passaram a ter um novo significado e uma nova abordagem no processo de mudança e inovação social no país.

Nada sobre nós, sem nós!

Nada sem nós, sobre nós! Foi o grande Manifesto dos discriminados e desfavorecidos deste país que tiveram palco, presença e participação activa nos seus destinos durante os anos de vigência da IC Equal e da liderança facilitadora de Ana Vale.

Quando o primeiro ciclo da IC Equal terminou foi proposto que 5% das verbas do FSE fossem dedicadas à Inovação Social para intensificar o esforço colectivo realizado e fornecer uma nova escala às experiências bem-sucedidas daquela fase inicial. A recusa desta proposta em nome de uma futura abordagem transversal da inovação social bloqueou um autêntico Movimento de esperança e de potencial reforço da coesão social, da criatividade colectiva e da justiça social.

O assassinato deliberado

Depois deste assassinato, Ana Vale nunca mais acreditou na possibilidade de uma mudança social a sério no país.

Recentemente quando surgiu o Programa DLBC – Desenvolvimento Local de Base Comunitária no qual antevi elementos muito próximos das estratégias da IC Equal e envolvi-me nas iniciativas de dinamização do programa, contactei a Ana Vale para ela participar numa sessão sobre Inovação Social e ela respondeu-me “Ó Carlos você ainda acredita nessas coisas!”.

Para além da Equal

Foi esta amargura e de alguma forma a desilusão que levou uma pessoa discreta por natureza a retirar-se do espaço público e a colocar-se numa posição reservada, privando o país de saberes e uma experiência absolutamente únicos.

Ana Vale não foi só IC Equal. Foi muito mais que um Programa Europeu. Foi a todos os títulos uma mulher defensora de novos direitos e de novas condições sociais.

Uma facilitadora de inovação com profundas convicções humanistas e com uma visão única do sentido de comunidade.

Marcou-nos. Marcou-me para sempre.

© foto IC Equal .

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