6 de Maio, 2021

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A cruz de 24 ou como votar para favorecer o combate à extrema-direita e reforçar a Esquerda Plural

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A cruz, a do próximo dia 24 de janeiro, nestas circunstâncias tão peculiares, tornou-se um pequeno calvário.

Alguns pontos de partida

  • a cruz, o voto num dos candidatos das Presidenciais 2021, rejeita duas eventuais formas de agir: a abstenção, inaceitável para quem sempre se bateu por eleições livres e pela democracia e, o voto em branco, que é entendido como um infantilismo por não ter em conta, cada situação concreta em política, como uma oportunidade para contribuir, com efeitos muito fracos, fracos, mais ou menos fortes e fortes, para um desfecho eleitoral. Por isso votar numa das candidaturas que se apresentam a sufrágio no dia 24, torna-se um imperativo;
  • o voto à esquerda impõe-se como uma evidência, sabendo-se que esta situação concreta coloca questões de ponderação pouco habituais;
  • não está em causa a avaliação de aspetos de carater e de seriedade dos candidatos à esquerda. Não surge como razão minimamente interessante fundamentar o voto pela abordagem personalizada ao candidato ou candidata. Os resultados terão uma interpretação política óbvia, logo…;
  • não está ame causa, principalmente, o programa político para governar o país que não está a ser sufragado nestas eleições. A título de exemplo, Jorge Sampaio deu posse ao governo de direita de Santana Lopes, podendo não o fazer alegando uma perspetiva de esquerda.
  • uma nota sobre o candidato da direita. Marcelo tem um mandato presidencial na sua carteira de experiência, desse ciclo de atuação institucional podemos adiantar duas matérias cruciais e aparentemente paradoxais: por um lado Marcelo funciona como um conservador da direita democrática, as instituições funcionam, o governo governa sem “forças de bloqueio!, dá garantias de um funcionamento estrutural democrático (nos tempos que correm, com as perturbações, incertezas e inseguranças na direita conservadora, não é assunto secundário), por outro Marcelo exerceu uma Presidência muito fraca, em domínios que, mesmo conservadores, poderiam ter levado a efeito com interesse público e geral. Marcelo foi fraco na função. Que comparação pode ser feita com as “Presidências Abertas de Soares” autênticas explosões da Sociedade Civil ou das Iniciativas de Jorge Sampaio junto dos atores da investigação, do desenvolvimento social, da educação, com acompanhamento em profundidade, trabalhando com a sua Equipa de Belém, de forma aprofundada. Marcelo é tão fraco, tão superficial, que mesmo num domínio onde poderia ter exercido o seu magistrado de Influência, como a comunicação social, onde teve papel relevante no passado, poderia ter influenciado, dinamizado os operadores, para uma Comunicação Social mais forte, mais consistente e menos comercial à procura de lucros fáceis. Marcelo foi muita parra e pouca uva, mesmo em matérias que uma direita esclarecida pode impulsionar.

Alguns pontos de fundamentação de uma opção

Estamos perante uma eleição presidencial com as seguintes características gerais:

  • um candidato da direita, conservador e sem capacidade de tornar a função presidencial como útil para o desenvolvimento do país, para além das garantias de estabilidade do jogo democrático. É importante, mas não suficiente. É preciso outra abordagem à função presencial;
  • duas candidaturas de base partidária João Ferreira e Marisa Matias, totalmente legítimas no jogo político atual (infelizmente procurando afirmar um programa de governação para uma função que não lhe corresponde) que procuram acumular forças para os próximos embates eleitorais;
  • uma candidatura não fundamentalmente partidária (não emerge de um partido) Ana Gomes, com apoio de partidos e com uma vinculação à corrente segurista do PS;
  • uma candidatura da extrema-direita que também procura acumular forças para os próximos atos eleitorais e que procura afirmar um terreno próprio de intervenção política para fraturar a direita democrática.

Que questões se colocam face a cada candidatura?

Face à candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, a improvável derrota deste candidato da direita conservadora, atrasa dramaticamente as dinâmicas indispensáveis de crescimento da sociedade civil no país e consequentemente vai contribuir para um período de atraso nas relações das populações com órgãos de soberania face às tarefas de desenvolvimento;

Que critério podemos então utilizar para fazer uma opção de voto numa das candidaturas de esquerda, quando o posicionamento não é aquele a que o militante se sente obrigado, e que se compreende, de dar força ao projeto em que acredita?

A interrogação fundamental que surge e que exige uma resposta tanto mais precisa quanto possível é a seguinte:

nestas eleições e na ação política desta ciclo trumpiano a nível mundial o combate à extrema-direita é ou não a questão central que se coloca à esquerda em Portugal e se esse combate deve ser realizado reforçando em primeiro lugar a esquerda plural e os mecanismos facilitadores de processos de convergência ou de cooperação?

Tendo em conta este filtro, no exercício de aferição das políticas e atitudes conhecidas do grande público, podemos adiantar as seguintes notas:

  • para Ana Gomes, o combate central a levar a efeito neste ciclo é contra António Costa e o PS. Ana Gomes é também uma adversária da solução Geringonça e desenvolve uma estratégia de fratura dentro do PS. Surge pouco credível como atora política de combate à extrema-direita, utiliza vários argumentos com pendor populista e até anti-democrático. Apesar de surgir como uma candidata com energia e combatividade, está longe se ser alguém que unifica o povo da esquerda e, infelizmente, pelas piores  razões.
  • Marisa Matias não decolou do Bloco de Esquerda e perdeu o capital de simpatia e político que transportava consigo dos tempos do Bloco Reformista Radical. Quando o Bloco surgiu como parte das soluções e não dos problemas (um reformismo combativo e que beneficiou muito o país). A posição revanchista e de esquerdismo popular no voto do Orçamento de Estado 2021 fez o BE regressar aos tempos do radicalismo associado a estratégias de revolução popular. Marisa aceitou, para mal das alternativas nestas eleições, ser crucificada nesta linha de “adolescência retardada”.  Ela que estruturalmente é uma reformista radical, uma combatente de causas que compreende que as vitórias se conseguem com alianças e com compromissos.  A esperança de uma Marisa reparadora do “pecado original” do Bloco morreu rapidamente e foi pena, teria sido um movimento interessante. A incapacidade de capitalizar o processo muito positivo da Geringonça, mantendo todas as ligações possíveis para que nunca pudesse ser acusado de ter provocado a sua morte, fez do BE um fraco opositor à extrema-direita, passando aos slogans e às atitudes que aparentam oposição, mas não têm qualquer impacto nos setores da  sociedade  portuguesa que importa conquistar.
  • João Ferreira está na batalha eleitoral para ser cabeça de cartaz de um PCP em grande dificuldade. Para o PCP esta batalha é antes mais uma luta pela sobrevivência. Abaixo de um determinado patamar de votação o voto “útil de protesto” vai deixar de funcionar e será dramático para o partido, até porque já há várias alternativas para esse peditório. A insistência em políticas de teor anti-europeu e o grande enfraquecimento, internamente, das forças favoráveis à Geringonça tornam incerta a evolução do partido de Jerónimo de Sousa. Importa salientar, no entanto, que nestas pressões e na relação de forças existente entre aqueles que querem fazer do PS o seu inimigo principal e aqueles que querem fazer caminho e acumular forças com maior flexibilidade à esquerda, registou-se uma posição de credibilidade e de coerência no voto do Orçamento de Estado para 2021 o que confirmou algo que subjetivamente é capital do próprio período da Geringonça: pode-se confiar no PCP em questões fundamentais contra a direita.

No meio destas linhas de avaliação só resta constatar que o voto mais próximo de um objetivo central, para as eleições, mas também para um futuro que deve assentar numa esquerda plural forte para combater a extrema-direita é o voto em João Ferreira.

Dar um sinal inequívoco que aqueles que não apoiam militantemente nem o Bloco de Esquerda como está atualmente, nem o PCP pela sua linha política e base ideológica e não confiam numa Ana Gomes que não dá garantias de nada, nas questões essenciais, dar um sinal que É PRECISO MAIS ESQUERDA PLURAL para um COMBATE EFICAZ À EXTREMA – DIREITA  e que se deve premiar aqueles que estão, nem que seja minimamente, a agir nesse sentido.

Carlos Ribeiro

22 de janeiro 2021

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