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Sobre um teatro de potencialidades

Autor: Wellington Oliveira

No dia 14 de Abril, no âmbito do 3° Encontro de Teatro Comunitário de Almada, Portugal, saí de Porto à Lisboa para assistir ao espetáculo Ensaio Sobre a Cegueira, do Projeto Teatro de Identidades, com direção de Rita Wengorovius. O espetáculo foi resultado de um processo artístico-pedagógico gerado pelo encontro de estudantes do Mestrado de Teatro e Comunidades, da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, com idosos.

Os desafios deste tipo de práticas, referentes ao fato incluir idosos com limites físicos, quadros de saúde comprometidos pelo Alzheimer, entre outros reflexos típicos desta fase da vida, frequentemente colocam os trabalhos teatrais com este público no interior de uma armadilha que tende a vitimização e a reprodução de um olhar que não é o dos idosos. O que eu vi neste espetáculo foi justamente o contrário. O Ensaio sobre a Cegueira, inspirado na obra de Saramago, foi construído a partir das potencialidades de cada um dos idosos que estavam no palco. A profanação de muitas práticas teatrais com estes públicos, geralmente um teatro de limitações, ocorreu pela construção de um teatro de potencialidades.

Diálogo com os corpos

O maior feito deste espetáculo foi o olhar para cada um dos participantes, conseguindo superar o mero conteúdo e criar uma forma própria, através de cada uma das potencialidades daqueles corpos. A presença dos estudantes do Mestrado de Teatro em Comunidades foi essencial na cena, estabelecendo um contato de parceria com os idosos, sem incorrer no erro de se tornarem os protagonistas da ação cênica. Todo o roteiro e movimentação das cenas foram construídos em diálogo com os corpos, cuja coletividade se constituía por gestos, movimentos e ações conseguidas por todos. Para quem não decorava textos, a dramaturgia se compôs a partir de frases ditas pelos estudantes e repetidas pelos idosos, de forma que isto de fato fosse cena e fizesse sentido para além de um texto repetido só para estar na boca dos participantes.

A cegueira dos sentidos

A comicidade presente no espetáculo, muito bem explorada e apropriada por todos, brincava com as limitações e doenças típicas da velhice, tornando o espetáculo também um gesto de reconhecimento das identidades de todos e de um olhar para o envelhecimento como mais um processo da vida – fase pela qual todos vamos passar. Para além dos idosos, a cena recebeu um participante cego, agregando uma dimensão muito mais profunda ao trabalho e um olhar diferenciado para o título de Ensaio sobre a Cegueira, deslocando o sentido de uma cegueira visual para algo muito mais amplo: temos olhos, mas muitas vezes não enxergamos. Temos ouvidos, mas muitas vezes não somos capazes de ouvir. Temos tato, mas muitas vezes não sentimos o que tocamos. A cegueira dos sentidos, das nossas sensibilidades, da negação dos nossos processos de vida, entre outras coisas, era a Cegueira que este coletivo estava tratando na cena. Uma cena de potências, capaz de agregar todas aquelas humanidades e presenças, compreendendo a igualdade de cada um dentro das diferenças. E esse é um dos maiores desafios dos nossos tempos, poder falar de igualdade nas diferenças. Ter espaços capazes de agregar todas as identidades e pluralidades.

Agradeço a todos os envolvidos neste projeto pela experiência, pela recepção tão afetuosa e pela oportunidade de ver que é possível pensar um teatro em que caiba toda a gente.

Wellington Oliveira, Arte-educador, professor de teatro e encenador, Doutorando em Educação Artística na Universidade do Porto, Mestre em Artes pela Universidade de Brasília – Brasil.

Foto, créditos: Diego Ponce de Leon


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