A certificação, um bem que vem por mal

DEBATE| Educação de adultos

Nos debates da última iniciativa promovida pela Lifelong Learning Platform – LLL Lab que dirigentes portugueses como Luis Costa e Susana Oliveira conduziram com arte e engenho, a par de outros protagonistas europeus, uma verdadeira questão foi colocada de forma informal mas com peso e medida que foi a seguinte: sim, aprendizagem ao longo da vida mas qual é a verdadeira finalidade?

A questão colocada num plano político deixou de ser uma mera curiosidade numa conversa entre peritos da ALV, que como sabemos é o que acontece sistematicamente neste tipo de eventos,

O emprego ou a vida…

A aprendizagem ao longo da vida e a educação de adultos terão por finalidade uma preparação para o mundo do trabalho e para o emprego ou a sua missão está principalmente associada à auto-construção de cidadãos ativos e conscientes que na sua relação com a vida quotidiana e com os desafios do futuro constroem percursos de uma vida que tem valor aos seus próprios olhos e não necessariamente a vida que lhes querem indicar como senso a vida que devem viver.

João Costa, Secretário de Estado da Educação presente no Encontro a quem se reconhece enormes qualidade de governante nestes domínios, colocou-se num dos lados da barricada e foi muito claro: primeiro a CERTIFICAÇÃO , depois as outras consequências ou impactos dos processos de aprendizagem.

Falas muito porque já és diplomado

O argumento utilizado foi decepcionante e roçou a demagogia quando Costa adiantou que quem já tem certificados e diplomas é que os desvaloriza, porque já os tem. No fundo colocando os detentores de diplomas e que pretendem uma outra abordagem para a educação de adultos como cegos e egoístas.

Segundo Costa o certificado é indispensável para todo e qualquer desempregado encontrar emprego e as atividades informais de educação-formação deveriam convergir para o sistema de RVCC para traduzir em diplomas as aprendizagens realizadas.

Na verdade esta afirmação da relação entre certificado e emprego está longe de ser verdadeira. A sua absolutização esconde outras preocupações que mereceriam ser reveladas, como é caso da pressão da OCDE sobre Portugal para que eleve os níveis de escolaridade da sua população ativa. Importa pois relativizá-la sem a desvalorizar.

Valor do certificado

Este campo do valor do certificado para o empregador adquire importância, em áreas profissionais nas quais a oferta de emprego é seletiva ao ponto da certificação exigida ser resultado de ciclos de certificação.

Não é o caso dos empregadores que maioritariamente se relacionam com os desempregados cujos ciclos de certificação são curtos ou inexistentes. Para estes funciona principalmente uma relação de proximidade e de contactos diretos, muitas vezes entre pessoas conhecidas e com contratações baseadas antes de mais na experiência e nas garantias de assiduidade e de responsabilidade.

Importante, mas não determinante

O certificado é importante, é! Mas não é determinante. Temos 500.000 trabalhadores pobres no país e nesta imensa fratura social o certificado não se articula com o elevador social.

Se um adulto que frequenta processos de aprendizagem em dispositivos de educação-formação locais tiver à saída do seu processo formativo ou de RVCC um portefólio de contactos, de experiências e de interações que o liguem ao meio profissional, que facilitem iniciativas de aproximação relacionadas com o emprego ou o trabalho, podemos admitir que se o certificado também o integrar, poderá ser uma mais-valia, mas nestes terrenos da relação profissional é o conjunto que funciona bem e não o certificado per si!

Continuar a atrofiar a educação de adultos em nome do certificado é afinal de contas consensual nas políticas públicas de educação-formação. Para enfrentar esta dramática convergência negativa contra a educação de adultos valeria a pena criar um organismo autónomo de cúpula da EFA portuguesa e, de baixo para cima, dinamizar autênticos Territórios Aprendentes que dêem expressão a uma convergência positiva em torno de uma educação de adultos transformadora.

Carlos Ribeiro | Caixa de Mitos

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